Especial Mulher: Hibisco Roxo- Chimamanda Ngozi Adichie

EM Drama
karina
2 semanas atrás

Hibisco-Roxo-Chimamanda-Ngozi-AdichieLivro: Hibisco Roxo
Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução: Julia Romeu
Nota: 5/5
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 324

Chimamanda é uma autora apaixonante e que acabou numa dobradinha aqui no #EspecialMulher, porque mais do que falar de mulheres, é extremante importante entender as realidades diferentes das mulheres em diversos cantos do mundo; e sem dúvida esse livro é muito mais que uma leitura obrigatória , é um mergulho numa outra realidade.

“Hibisco Roxo” é um romance narrado em primeira pessoa e é ambientado na cidade onde a autora nasceu. Narrada pela protagonista Kambili, uma garota de família rica, seu pai (Eugene) tem muita influência sobre a sociedade que os cerca; sua mãe é completamente submissa, vive para o marido e a família; enquanto seu irmão mais velho é um adolescente que apresenta vários momentos de confronto com o pai.

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O elemento da religião é muito forte e presente nas relações entre a família, pois o pai dela é um católico fervoroso, muito austero e que para quem vê de fora mantém uma família perfeita, daquelas de comercial de manteiga, mas logo nas primeiras páginas nos deparamos com momentos de violência doméstica, e isso instaura uma sensação de tensão. Não só controlar os horários, seu pai também controlava as interações sociais chegando até mesmo a estipular que as crianças só podem ver o avô por no máximo 15 minutos, pois ele não concorda com a posição religiosa do pai (avô das crianças).

“Pancadas pesadas e rápidas na porta talhada à mão do quarto dos meus pais. Imaginei que a porta estava emperrada e que Papa estivesse tentando abri-la. Se imaginasse aquilo sem parar, talvez virasse verdade.”

Todos os personagens são muito completos e apresentam características contraditórias, ao mesmo passo que o pai é violento e rigoroso, ele ainda é muito generoso fazendo caridade para as pessoas menos favorecidas, ele é dono de um jornal que é o único que ainda se coloca contra o governo, que escancara os momentos que a Nigéria tem passado, como o golpe de estado e a greve da universidade.

“A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.”

A relação que as crianças têm além do círculo familiar direto é o contato com a tia delas Ifeoma que é viúva, professora universitária e mora com os filhos em Nsukka, uma cidade-universitária da Nigéria (que já também citada em “Americanah” outro romance de Chimamanda) e tem vários desafios a vencer a fim de sustentar a família dela. A tia é também convertida ao catolicismo, mas diferentemente do irmão (pai de Kambili e Jaja) não rompeu relações com os pais, é contestadora, e incentiva os filhos a pensar, coisa que não acontece na família de Kambili.

“Até então eu me sentira como se não estivesse ali, como se estivesse apenas observando uma mesa onde se podia dizer o que você quisesse, quando quisesse, para quem quisesse, onde o ar era livre para ser respirado à vontade.”

Como sempre Chimamanda traz muito da sua vivência para seus romances, com uma linguagem bem simples e direta temos um retrato de família que nos mostra os perigos da colonização branca sobre a África, do extremismo religioso ou ainda de como imposições podem moldar a visão que se tem do mundo; com as relações que Kambili e o irmão desenvolvem com as novas pessoas que fazem parte do círculo da tia, fica claro a escolha do título, é como acompanhar o desabrochar de um novo mundo e novos pensamentos.

Esse é um livro denso, bonito, pesado, triste e necessário de uma maneira que Chimamanda nos empresta os personagens além das páginas, as reflexões nos seguem depois do último ponto final; a diagramação e a capa estão impecáveis e com certeza esse é um exemplar que vai para a minha prateira de preferidos.

karina
Sobre karina

Biomédica por formação , bookaholic por paixão !

 

COMENTÁRIOS

  • Lara Caroline

    Oi Karina, tudo bem?
    Mais uma indicação maravilhosa nesta semana da mulher. Adorei a proposta do romance, que é apresentar esse fanatismo religioso que é um problema atual da nossa sociedade, aliás de diversos lugares do mundo. Este já é outro livro que quero ler, principalmente pela temática e também por ter esta capa lindíssima.
    Beijos