A Hora Mais Escura, dirigido por Kathryn Bigelow.

EM Críticas
4 anos atrás

 A certa altura de A Hora Mais Escura, o big boss da CIA (interpretado pelo sempre marcante James Gandolfini) pergunta à protagonista “O que mais fez para nós? Além de Bin Laden?” e ela responde “Nada. Não fiz mais nada”. Desde o início do mais recente trabalho de Kathryn Bigelow, a agente Maya (Jessica Chastain) é construída numa crescente, de maneira fantástica, onde cada minuto que passa acreditamos que, de verdade, dedicou inteiramente sua vida para caçar o terrorista – que viria ser o mais procurado do mundo – Osama Bin Laden. Sim, A Hora Mais Escura é o polêmico filme que retrata a caçada, após o ataque às torres gêmeas em 2001, ao líder-fundador da organização Al-Qaeda pela agência central de inteligência norte-americana.

A personagem de Chastain, como a atriz mesmo declara em entrevistas, foi “treinada para não ter emoções e ser precisa analiticamente”, ou seja, em A Hora Mais Escura encontramos uma protagonista que, recrutada pela CIA ainda no Ensino Médio, tem uma única missão: achar o terrorista responsável pelos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono. Forte e dedicada, atravessará barreiras – físicas e psicológicas – para cumprir a difícil tarefa. Se Jessica, que estourou no ano de 2011, realizou atuações dignas de elogios como em O Abrigo (Take Shelter) e Histórias Cruzadas (The Help), aqui comprova ser não só uma ótima atriz da nova geração, mas sim uma mulher de talento nato que demonstra ter potencial para muito mais.

O início do filme com tela preta avisa “Esse filme é baseado no relato em primeira mão de eventos reais”, o que logo na sequência ouve-se ao fundo – ainda em tela preta – vozes gravadas de reportagens e ligações telefônicas do momento do acidente do 11 de Setembro. De modo inteligente, Kathryn Bigelow não faz uso de imagens exaustivamente vistas e já desgastas. Ao invés disso, ela usa uma gravação de um telefonema de uma mulher presa em uma das torres para dar tensão e introdução à história – mas não só. Essa parte introdutória é muito mais do que aparenta ser, pois também transmite o sentimento que esse evento trágico causou nos estadunidenses. O timbre agonizante da voz da mulher permite imaginarmos que o governo dos EUA não iria desistir até capturar o culpado pelo terrível atentado.

E não demora muito para o espectador ser chocado por uma cena de tortura em um interrogatório. O aviso do início somado à algumas declarações da produção do longa (que diz ter obtido fontes verdadeiras sobre a história) causou polêmica nos EUA. A CIA veemente nega dizendo que o Estado têm todas as informações sobre a “Operação Jawbreaker” – como realmente a caçada foi chamada – em sigilo absoluto. Mas o que é um governo sem sua oposição? Os republicanos não demoraram muito parar aumentar a polêmica criando um comitê investigativo no senado para saber se houve ou não vazamento de informações. Só que, para não me alongar muito, a intenção do longa sempre foi documentar com a maior veracidade possível, e se tratando de Mark Boal (roteirista do filme) seria difícil acreditar que ele não tenha fontes interessantíssimas no governo.

Boal tem grande influência devido ao fato de ter coberto parte da Guerra do Iraque e ter escrito artigos, para grandes revistas, como o “Death and Dishonor” que inspirou Paul Haggis a filmar o ótimo e subestimado No Vale das Sombras (In the Valley of Elah, 2007). Sendo jornalista de renome, escreveu seu primeiro roteiro, baseado em seu artigo “The Man in the Bomb Suit”, para o filme Guerra ao Terror (2009), último longa de Bigelow. Seu talento escrevendo script foi reconhecido de imediato, e hoje é sem dúvida, com A Hora Mais Escura, inquestionável.

Fato é que a criativa dupla queria apenas imprimir no filme a verdade da história em prol da sétima arte. E se o final dessa história já é conhecido, Kathryn, mestre no gênero de ação, amadurece sua técnica e explora o cinema como ficção para nos mostrar, de modo surpreendentemente, o desenvolvimento dos praticamente dez anos de caçada. Graças a habilidade jornalística do roteirista, obtém-se aqui um roteiro objetivo e realístico no que quer relatar, e se as divisões em capítulos parecem atrapalhar o ritmo do filme, a diretora com câmera na mão (recurso usado para realçar a verdade da ação mostrada) quase os 157 minutos, vasculha e procura todos os ângulos e enquadramentos possíveis nos espaços – seja filmando o interior de um helicóptero cheio de soldados, seja filmando uma grande sala de reunião – para criar uma narrativa precisamente detalhista trazendo o espectador pra dentro da história.

Sendo o mais completo entre os indicados e, com certeza, meu favorito para ganhar melhor filme no Oscar 2013, A Hora Mais Escura conta com uma equipe técnica de dar água na boca. Se temos um Alexandre Desplat bastante inspirado, criando uma trilha sonora muito difícil e ao mesmo tempo poderosa, apesar de contida (por não ser alta ou “brutal”); ao lado encontramos um diretor de fotografia competentíssimo chamado Greig Fraser que soube com maestria trabalhar as cores nos vários ambientes distintos onde o filme percorre, desde cores quentes típicas a paisagem paquistanesa até as cores frias de Washington; e no outro lado dois excelentes montadores, Dylan Tichenor e William Goldenberg, que fizeram do longa algo fluido e orgânico.

Não menos importante e super bem captado, o design de som faz do momento da captura de OBL, que ocupa quase o terceiro ato inteiro, algo brilhante – principalmente os sons diegéticos como o barulho do chão sendo pisado ou da arma disparando. A fortaleza onde o terrorista estava escondido foi perfeitamente recriada – uma competência e esforço técnico de encher os olhos. Kathryn Bigelow sabe mesmo como arquitetar e orquestrar todo o suspense de maneira sensacional. E a delícia de assistir o exercício de direção, que nos guia sempre junto a equipe de força tática Navy SEALs para o interior da fortaleza, faz de A Hora Mais Escura uma experiência única. A ex-esposa de James Cameron (Avatar, Titanic) aqui firma sua posição como uma das grandes cineastas da atualidade.

E se em Guerra ao Terror, o soldado William James abandonou sua família e abdicou de ter uma vida normal em detrimento a algo maior que ele, Maya encontra-se igualmente na mesma posição, mas só que James teve outro campo de batalha para retornar. E Maya, terá outro?

Resenha por: Erasmo Penteado, colunista. (@p_erasmo)


Zero Dark Thirty (EUA, 2012)

Direção: Kathryn Bigelow.
Estrelando: Jessica Chastain, Jason Clarke, Joel Edgerton, Jennifer Ehle, Mark Strong, Edgar Ramírez, Kyle Chandler, Harold Perrineau.

Duração: 157 min

Distribuição:  Imagem Filmes.


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